Quarta-feira, 5 de Março de 2008

Compreender o Iraque

por YASIN DIOURI
 
 

Recuemos até o ano de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, ano em que as tropas britânicas conquistam Bagdad aos turcos do Império Otomano e este é derrubado.

 

Após a derrota definitiva dos turcos, os britânicos delimitam o que chamam o Estado do Iraque no dia 10 de Janeiro de 1919 e repartem a principal riqueza do país: o petróleo. O Reino Unido, França, Holanda e os EUA ficam cada um deles com 23,5%, deixando os outros 5% nas mãos duma corporação privada dirigida por Calouste Gulbenkian. A Liga das Nações decide no dia 11 de Novembro de 1920 deixar o Iraque sobre controlo britânico. Estes nomearam rei Faisal Ibn Hussein da dinastia hachemita, irmão do monarca da vizinha Transjordânia (actualmente Jordânia) Abdulah Ibn Hussein. Um plebiscito popular celebrado em 1921 confirma a Faisal I como rei do Iraque. Os britânicos elaboram uma constituição, estruturam o parlamento e minam as forças do movimento nacionalista e independentista que começa a surgir nos núcleos urbanos. As autoridades do Império Britânico não duvidam em recorrer à força para fazer respeitar as suas decisões e proteger os seus interesses.

 

Descobrem-se mais reservas petrolíferas perto de Kirkuk e Faisal I outorga os direitos exclusivos da exploração à britânica Iraqi Petroleum Company. Em 1932 finaliza o mandato britânico sobre Iraque segundo a Liga das Nações, mas não há mudanças importantes na vida política e económica do país. Em Dezembro de 1933 morre o rei Faisal I e passa a ocupar o seu lugar o seu filho Ghazi, cujo reinado seria curto, já que morre num acidente de viação no dia 3 de Abril de 1939. O seu único filho, Faisal, é nomeado rei com tão só 4 anos de idade, ficando a responsabilidade da regência sobre o seu tio Abdul-Ilah. Aproveitando a debilidade da monarquia e a ausência dos britânicos, o militar Rachid Ali Al-Gaylani destrona a Faisal II em 1941, mas uma nova invasão do exercito britânico devolve ao trono a Faisal II e ao seu regente no mês de Maio desse mesmo ano. Em 1945 o país ingressa nas Nações Unidas e, baixo o auspício do Reino Unido, converte-se em membro fundador da Liga Árabe. A minoria curda que ocupa o norte do país revolta-se contra a monarquia sob o comando de Mustafá Barzani, mas o levantamento fracassa e os seus líderes fogem para a União Soviética.

 

O estabelecimento do Estado de Israel em 1948 leva o governo iraquiano a aliar-se com a Transjordânia e declarar-lhe a guerra. 40% do orçamento destina-se às forças armadas e a atender aos refugiados palestinianos. Israel corta assim o oleoduto de Haifa, ficando Abdul-Ilah com metade dos impostos por exploração das jazidas de petróleo. Mesmo estando a emigração proibida no Iraque, milhares de judeus fogem para Israel. Em 1949 é assinada a paz com o estado israelita após uma humilhante derrota da coligação árabe e no ano seguinte legaliza-se a emigração: 110.000 judeus abandonam o país entre o mês de Maio de 1950 e o mês de Agosto de 1951. A guerra, o corte do oleoduto e a fuga de uma das comunidades mais prósperas do Iraque deixa a economia seriamente ameaçada.

 

A chegada ao poder de Gamal Abdel-Nasser no Egipto em 1956 leva aos EUA e ao Reino Unido a desenhar uma aliança militar com os seus principais estados na região para contrapor à euforia pró-nasserista. O Pacto de Bagdad une o Iraque, Turquia, Irão e Paquistão às tais potências. Perante tal movimento, Nasser acusa Faisal II de ser uma marioneta nas mãos dos britânicos e faz um apelo aos militares para que o derrubem. O ataque combinado da França, Reino Unido e Israel sobre o Egipto na Península do Sinai nesse mesmo ano atiça ainda mais a chama anti-ocidental e antimonárquica no Iraque. Encontramo-nos no mês de Fevereiro de 1958 e o rei Hussein da Jordânia e Abdul-Ilah propõem uma união entre ambas as duas monarquias hachemitas para contrapôr à recente união sírio-egípcia (a chamada República Árabe Unida) sob o mandato de Nasser e o crescente descontentamento popular no Iraque. Nuri Al-Said, primeiro ministro do país, viaja ao Kuwait para convencer os seus emires para formar uma tripla união. Os iraquianos sempre viram este país como uma criação artificial dos britânicos. Mas o Kuwait ainda era um protectorado britânico, e este recusa-se a dar-lhe a independência.

 

No dia 14 de Julho de 1958 oficiais da 19ª Brigada das Forças Armadas Iraquianas, chamados “Os Oficiais Livres”, de tendência pró-nasserista e comandados pelo brigadeiro Abdul-Karim Kassem “Azzaím”(O Chefe) e o coronel Abdul-Salam Arif destronam o rei Faisal II. Este, junto com outros membros da família real, é executado e os seus cadáveres mostrados em público. É declarada a república. Dissolve-se a união com a Jordânia e retiram-se do Pacto de Bagdad. O novo Governo declara os acordos para a exploração do petróleo iraquiano nulos, mas insta a Iraqi Petroleum Company a continuar explorando os jazigos de petróleo em troca dum pagamento substancialmente maior. A IPC aceita o acordo. Com o passar do tempo, Kassem começa a afastar-se das políticas nasseristas, e assim cresce uma oposição ao seu governo dentro do próprio exército, chefiada por Abdul-Salam Arif. Este acaba por ser preso. Numa tentativa frustrada de assassinar Kassem, intervem um homem que iria dominar o Iraque no futuro: Saddam Hussein. Este é baleado na perna, mas mesmo assim, consegue fugir para a Síria. A guarnição do exército de Mosul rebela-se contra o governo de Kassem. Perante a pressão, este autoriza o regresso ao país do líder curdo Barzani em troca da sua colaboração na derrota dos insurrectos. Finalmente, estes não conseguem depor a Kassem, mas o governo está muito débil. Aproveita-se de isto o mesmo Barzani, que lidera uma nova insurreição curda que não será sufocada até muitos anos depois. Quando o Reino Unido outorga a independência ao Kuwait em 1961, Kassem vê uma oportunidade para fortalecer a sua imagem e declara a soberania sobre o emirato, baseando-se em que este formava parte da província otomana de Basra (agora província do Iraque). Os britânicos rejeitam esta afirmação e como medida dissuasória estacionam uma brigada do exército no Kuwait. Kassem vê-se obrigado a recuar.

 

Membros do Partido Socialista do Renascimento Árabe ( o Baas) dão um golpe de estado no mês de Fevereiro de 1963 e nomeiam primeiro ministro a Ahmed Hasàn Al-Bakr e presidente ao ex-preso Abdul-Salam Arif. A ideologia baatista, que iria dominar os seguintes anos da vida dos iraquianos, têm as suas raízes no marxismo, e propõe a unificação pan-árabe, a independência face às potências ocidentais e a realização de um programa de carácter socialista (“União, Liberdade, Socialismo”).

 

Saddam Husseim é autorizado a voltar ao Iraque. O governo baatista reconhece a independência do Kuwait no mês de Outubro, mas o Baas é expulso do governo por Arif no mês seguinte e vários dos seus membros são presos, entre eles, Saddam Hussein. No dia 13 de Abril de 1966 Abdul-Salam Arif morre num acidente de helicóptero e sucede-lhe na presidência o seu irmão, o general Abdul-Rahmán Arif. No ano a seguir Saddam foge da prisão e converte-se num dos líderes mais importantes do Baas na clandestinidade. Este facto junto com outra derrota da coligação árabe na terceira guerra árabe-israelita e o corte de relações com os EUA nesse mesmo ano, debilita o poder e a credibilidade de Arif. Finalmente, no dia 17 de Julho de 1968 o Baas volta a dar outro golpe de estado. Ahmed Hásan Al-Bakr é nomeado presidente do Iraque e do Conselho de Comando da Revolução. Saddam Hussein é já Secretário-Geral do Baas e também vice-presidente do país e do Conselho. O governo de Al-Bakr encontra-se com um orçamento no qual é destinado 90% ao exército. Decide-se dar prioridade à agricultura e à indústria. Relativamente ao petróleo, acaba-se o monopólio da Iraqi Petroleum Company ao assinar-se um outro contrato de exploração com a francesa ERAP. Passado um ano do golpe de estado, e perante a impossibilidade de reprimir pela força os rebeldes curdos, deixa-se nas mãos de Saddam Hussein a responsabilidade de chegar a acordo com os independentistas. E chega em 1970, os curdos ganham uma determinada autonomia dentro do Iraque, com um gabinete com 5 cargos, o reconhecimento oficial da língua e cultura curdas e uma parte proporcional das receitas nacionais. Rejeitaram todas as aspirações curdas sobre os campos petrolíferos de Kirkuk. Uma delegação iraquiana visita Moscovo no ano de 1972 e assina um tratado de ajuda económica e militar com as autoridades soviéticas. Nesse mesmo ano também normalizam-se as relações com os EUA, com a Síria e a Jordânia. No dia 1 de Junho aceita-se a proposta de Saddam Hussein de nacionalizar as companhias petrolíferas. Saddam é nomeado general no ano de 1973, data em que começa a obter sérios apoios tanto dentro do Baas como no exército. Foi um dos máximos responsáveis da politica de segurança nacional repressiva, mas também da modernização e activação da economia. Graças à crise petrolífera que começa nesse ano de 1973 e que faz elevar os preços do crude, as receitas do governo de Al-Bakr multiplicam-se. Instaura-se a educação universal gratuita (incluindo a educação superior) e programas para acabar com o analfabetismo, ajudas às famílias dos soldados mortos em defesa da pátria, a hospitalização universal gratuita, subsídios aos camponeses, a expropriação das terras aos latifundiários e a sua repartição entre os camponeses mais necessitados, a modernização do transporte, a distribuição da electricidade, etc… assim como a promoção de outras indústrias para além da petrolífera, como por exemplo a mineira.

 

As disputas com o Irão reacendem-se no ano 1975 quando as tropas iranianas ocupam a via aquífera iraquiana de Shatt Al-Arab, ao norte do Golfo Pérsico, uma importante via para a exploração do petróleo para ambos os países. Existem relatórios que demonstram que o Secretario de Estado dos EUA, Henry Kissinger, incitou o Xá do Irão a dar este passo. Mas estes factos não provocaram incidentes mais graves, já que a 6 de Março os dois países assinam os Acordos de Argel. O Iraque reconhece o direito do Irão sobre a parte oriental de Shatt Al-Arab em troca do fim das ajudas aos curdos. Pouco depois reacenderam-se por parte do governo as hostilidades contra os curdos. Também se esfriam as relações com o Kuwait por questões fronteiriças e com a URSS por causa da execução no Iraque de vários comunistas. No mês de Fevereiro de 1979 produz-se a revolução islâmica xiita no Irão, um facto chave que afectará toda a história posterior iraquiana. As tensões entre ambos os dois estados vão em crescendo, ao considerar Al-Bakr a revolução xiita e o seu carácter expansivo um perigo para o seu governo de minoria sunita (60% da população iraquiana é xiita). Al-Bakr decide então preparar um projecto de unificação com a Síria (também governada pelo Baas), que aponta Hafez Al-Asad, presidente da Síria, como o futuro máximo dirigente da unificação. Ao ver o seu futuro cargo de sucessor de Al-Bakr em perigo, Saddam Hussein reúne os máximos líderes do Baas no dia 22 de Junho de 1979 e lê vários nomes duma lista elaborada pelo próprio. Aqueles cujos nomes são mencionados, são feitos presos e fuzilados. Semanas depois, no dia 16 de Julho, Al-Bakr demite-se e Saddam Hussein Abdel-Mayid Al-Tikriti (nascido a 28/04/1937) assume tanto a presidência do Estado assim como a do Conselho da Revolução.

 

O governo de Saddam aposta por medidas radicalmente opostas às que avança a vizinha revolução islâmica: ampliam-se os direitos das mulheres (obtendo inclusive altos cargos no governo e na indústria), cria-se um sistema legal à ocidental , na qual a lei islâmica está ausente (excepto nos casos de injúria pessoal). Assim mesmo cultiva uma imagem de líder político e espiritual do povo iraquiano, fazendo referências à época abbasida, na que Bagdad era a capital política, económica e cultural do mundo árabe, mas também à cultura mesopotâmica e a reis como Nabuchadnezzar ou Hammurabi (incrementando também o investimento em arqueologia). Para além do típico uniforme militar, apresenta-se também vestido como beduíno, curdo ou ocidental, assim como rezando virado para Meca. Mas Saddam têm que enfrentar-se com os mesmos problemas que os seus antecessores no cargo: continua com uma forte oposição por parte dos curdos, que acham opressoras as medidas arabizadoras do Baas, e da maioria xiita, que se extremaram após o triunfo da revolução iraniana. Convêm assinalar também que a modernização e o crescimento da economia permitem aos iraquianos com salários de professor viajar e fazer turismo na Europa nos fins da década dos 70.

 

Os planos de Saddam Hussein para fazer do Iraque a primeira potência regional passam por debilitar o regime iraniano dos ayatolahs, e se possível, fazer sua a província iraniana de Khuzestán, que colocaria nas suas mãos 20% das reservas mundiais de petróleo. A recente revolução, a purga de altos oficiais militares e o fim da ajuda norte-americana deixavam o país persa mais vulnerável que nunca. Assim, no dia 22 de Setembro de 1980 o Iraque declara guerra ao Irão usando como desculpa uma pretensa tentativa de assassínio do Ministro de Exteriores Tarik Aziz. As forças armadas iraquianas utilizam basicamente o material militar adquirido à URSSS e os seus aliados, mas também à China, à França, ao Egipto e provavelmente à Alemanha. Saddam também obtêm tecnologia europeia para a fabricação e melhoria do armamento químico. Os dois primeiros anos foram um desastre para o comando iraniano. As forças de Saddam conseguem penetrar profundamente no território persa numa longa frente. Mas a sorte dos iraquianos acaba no mês de Junho de 1982, quando os contra-ataques iranianos os obrigam praticamente à retirada do país. Desde esse momento, a posição iraquiana será unicamente de defesa. Este facto empurra os EUA a apoiar abertamente Saddam Hussein, oferecendo-lhe ajuda militar e financeira. O Iraque oferece um cessar-fogo, mas o regime iraniano rejeita-o, prolongando ao longo de mais 6 anos uma guerra estática tremendamente brutal, com semelhanças à Primeira Guerra Mundial, incluindo o uso de armas químicas por ambos os lados. É muito possível que a melhoria do material militar iraniano tivesse como causa o chamado “Assunto Irão-Contra”: oficias militares norte-americanos venderam ilegalmente material bélico ao Irão para poder financiar a guerrilha dos Contra na Nicarágua. Nos últimos anos de guerra, a crescente ajuda exterior permite ao Iraque modernizar o seu exército e recomeçar as suas ofensivas, incluindo bombardeamentos sobre as cidades principais do Irão, como por exemplo a sua capital Teerão. No dia 16 de Março de 1988 o exército iraquiano lança gás nervoso sobre a cidade curda iraquiana de Halabuyah, assasinando 5.000 pessoas, entre as quais crianças. No dia 3 de Julho, o barco norte-americano USS Vincennes abate um avião de passageiros civil das linhas aéreas iranianas, de que resultam 290 mortos. O governo dos EUA afirma que foi confundido com um F-14 Tomcat das forças armadas do Irão. Vários analistas consideram este facto como um aviso ao regime iraniano para pôr fim à guerra. Efectivamente, no dia 20 de Agosto, é assinado o cessar das hostilidades. O conflito durou quase 8 anos e custou a ambos os dois países milhões de mortos e a destruição do sector mais produtivo das suas economias: o petrolífero. No final da Guerra Irano-Iraquiana, Saddam Hussein encontra-se no comando do exército mais numeroso da região, mas com a economia destroçada, com os curdos em pé de guerra e gigantes dívidas, fundamentalmente com o Kuwait ( 14 mil milhões de dólares) e a Arábia Saudita. O governo tenta obter fundos propondo à OPEP a diminuição da produção de petróleo para fazer subir os preços, mas o Kuwait responde aumentando-a. As tensões entre o Iraque e o Kuwait aumentam ao acusar Saddam o emirato de aproveitar-se da guerra para explorar poços petrolíferos no território fronteiriço em disputa. Também proclama que a guerra com o Iraque foi em favor de todos os países árabes por ter inviabilizado a extensão da revolução islâmica e que por isso, tanto a Arábia Saudita como o Kuwait deviam anular a dívida contraída. As negociações com o Kuwait começam no mês de Julho de 1990, mas só conseguem aumentar a tensão. Saddam reúne-se com a embaixadora norte-americano April Gillespie, e transmite-lhe a sua intenção de não renunciar às acções bélicas, no caso das negociações não avançarem. A embaixadora responde que os EUA “não têm nenhuma posição nos conflitos entre estados árabes, como é o caso das suas discrepâncias fronteiriças com o Kuwait”. No dia 1 de Agosto reúnem-se os representantes iraquianos e kuwaitianos na Arábia Saudita para reiniciar as negociações. Só conseguem ameaças e insultos mútuos. No dia a seguir, as tropas iraquianas entram no Kuwait e pouco depois da meia-noite controlam todo o país. Horas depois, o Conselho de Segurança da ONU e a Liga Árabe condenam a invasão, ordenam ao Iraque a retirada e impõem sanções económicas. O governo saudita recebe informação do embaixador norte-americano de que os seus satélites captaram presumiveis imagens (nunca foram mostradas), de que as tropas iraquianas estavam quase a atravessar a fronteira kuwait-saudita. No dia 7 de Agosto, os EUA enviam as suas tropas para a Arábia Saudita. Depois saíram à luz imagens de satélites soviéticos em que não aparece evidência nenhuma de que as tropas iraquianas fossem invadir a Arábia, inclusive o comandante-em-chefe norte-americano, o general Norman Schwarzkopf, admitiu que nunca houve nenhum facto que apontasse para a exactidão da informação. Saddam responde a estes factos no dia 8 de Agosto anexando o Kuwait e declarando-o a 19º província do Iraque.

 

Estamos no mês de Novembro de 1990 e a crise da invasão iraquiana ao Kuwait continua aberta. O Conselho de Segurança adopta a resolução 678, pela qual autoriza o uso de todos os meios para libertar o Kuwait e põe como data limite o dia 15 de Janeiro para que as forças iraquianas abandonem o Kuwait. O Iraque condiciona a sua retirada à retirada de Israel dos territórios palestinianos e à da Síria e do Líbano. No dia 12 de Janeiro o Congresso dos EUA aprova o uso da força militar contra o Iraque. No dia 16 de Janeiro as tropas de uma coligação de 33 países (Afeganistão, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Bahrein, Bangladesh, Canadá, Checoslováquia, Coreia do Sul, Dinamarca, EAU, Egipto, Espanha, França, Grécia, Holanda, Honduras, Hungria, Itália, Kuwait, Marrocos, Níger, Noruega, Omã, Paquistão, Polónia, Portugal, Qatar, Reino Unido, Senegal, Síria e a Turquia, vários deles convencidos graças a ajudas económicas o à anulação de dívidas), liderada pelos EUA lançam um bombardeio sobre Bagdad às 3 da madrugada. O Iraque responde lançando 8 mísseis Scud sobre Israel, numa intentona de arrastar este à guerra e avivar a chama anti-sionista nos países árabes, mas Israel manteve-se neutral, assim como a vizinha Jordânia. Os exércitos da coligação conseguiram rapidamente a superioridade aérea e os objectivos dos bombardeios, para além dos nitidamente militares, foram também industriais como a produção de electricidade (cujos níveis no pós-guerra reduziram-se a 4%), depuradoras, equipas de telecomunicação, portos, refinarias petrolíferas, pontes e duas centrais nucleares activas (violando a resolução 45/52 da ONU). O Iraque lançou os seus mísseis Scud contra as bases da coligação na Arábia e no Kuwait, com muito pouco êxito. No dia 22 de Fevereiro a URSS propôs um cessar-fogo se as forças iraquianas retirassem para posições anteriores à invasão. O plano foi aceite pelo governo iraquiano, mas rejeitado pelos EUA, mesmo aceitando não atacar as tropas que retirassem. No dia 24 os homens da coligação começaram a entrar em território iraquiano. No dia 26 o exército iraquiano retira-se em massa para o seu país, incendiando os campos de petróleo. O comboio de retirada foi tão bombardeado que ficou conhecido como a “Autoestrada da Morte”. Nem o Iraque, nem a coligação usaram armas de destruição maciça, mas vários soldados da coligação apresentaram o chamado “Síndrome do Golfo”, provavelmente derivado do uso do urânio empobrecido nas munições. O presidente dos EUA, George H.W Bush declara o cessar-fogo no dia 27 de Fevereiro (mas muitos jornalistas ocidentais afirmam que até o dia 29 as tropas norte-americanas dirigidas por Barry McCaffrey continuavam perseguindo e abatendo soldados iraquianos). Saddam Hussein aceita as condições da ONU (embargo económico, inspecções às suas instalações militares…) em Abril de 1990. A resolução 986 permite ao governo iraquiano exportar 5,2 milhões de dólares em petróleo cada 6 meses a troca de alimentos e produtos de necessidade humanitária.

 

A Guerra do Golfo foi um desastre para o país. Estima-se que as suas baixas foram entre 150 000 e 200 000, colocando-se possivelmente as cifras mais realistas em torno a 75 000, contra 378 mortos e menos de 1 000 feridos nas fileiras da coligação. O custo das operações supuseram para os EUA 61,1 milhares de milhões de dólares, garantidos a 2/3 pelo Japão, Kuwait e Arábia Saudita. Os líderes iraquianos afirmaram ter encontrado nas mãos do governo do Kuwait um documento da CIA que instava o Kuwait a multiplicar as provocações contra o Iraque com a promessa de que iam ser defendidos e solucionados os seus problemas fronteiriços. Os EUA desmentiram a existência de tais planos. Por outro lado, as promessas de ajuda por parte dos norte-americanos aos rebeldes curdos encontraram a oposição frontal da Turquia, que também tem uma minoria curda considerável. Assim, os restos do exército iraquiano dedicaram-se a massacrar tanto aos curdos do norte como os chiitas do sul. Os EUA impuseram uma zona de exclusão aérea ao norte do paralelo 36 e ao sul do 32. Os caças e bombardeiros norte-americanos e britânicos sobrevoavam diariamente estas áreas, bombardeando praticamente a cada saída. Devido ao medo dos países árabes (fundamentalmente das monarquias e emiratos do Golfo Pérsico), a uma nova revolução islâmica, os EUA não derrubaram Saddam. Mas este vê-se obrigado a mover-se para posturas mais islamistas para contentar o crescente extremismo religioso: aparece muito mais em posições de nítido carácter religioso. Reintroduzem-se elementos da lei islâmica como a pena de morte por homossexualidade e a frase de “ Al-Lahu Akbar” (“Deus é grande”) é introduzida na bandeira nacional.

 

Numa visita do já ex-presidente dos EUA George Bush (pai) no dia 27 de Julho de 1993 ao Kuwait produz-se uma tentativa de assassinato. As autoridades norte-americanas culpam os serviços secretos iraquianos e bombardeiam a Oficina de Inteligência Iraquiana em Bagdad. No mês de Maio de 1995 Saddam expulsa do governo o Ministro do Interior Watban e no mês de Julho faz o próprio com o seu poderoso Ministro da Defesa Ali Hasán Al-Mayid ( chamado “O Químico” pelos ocidentais). Estas alterações supuseram o ascenso dos seus dois filhos Udai e Kusai à vice-presidência, que começaram a purgar oficiais e a instaurar um regime de terror e corrupção. O general Husseín Kamil Hasán Al-Mayid, Ministro da Indústria Militar e genro de Saddam Husseín, foge com o seu irmão (também genro de Saddam) e as suas respectivas mulheres (filhas de Saddam) para a Jordânia em Agosto. Desde ali fazem um apelo ao derrube do regime iraquiano. Antes que Hussein Kamil conseguisse revelar nada, o líder iraquiano ofereceu plena colaboração aos inspectores da UNSCOM, a comissão de desarme da ONU; posteriormente rejeitará a visita a algumas instalações, expulsará os inspectores e encontraram-se provas de desenvolvimento de ADM. Os desertores voltam ao Iraque, onde são assassinados ambos os dois maridos.

 

Possivelmente devido às evasivas e secretismo do regime iraquiano, norte-americanos e britânicos decidem começar a operação “Deserte Strike” (“Golpe do Deserto”), no mês de Setembro de 1996, com várias semanas de bombardeios intensivos sobre o país. No ano seguinte, são expulsos inspectores norte-americanos acusados de espionagem.

Evidentemente o governo de Bill Clinton desmentiu-o, mas em 1998 o marine norte-americano Scott Ritter , membro da equipa de inspecções, demitiu-se sob o argumento de que a CIA utilizava as suas visitas para realizar operações encobertas. No mês de Dezembro desse mesmo ano foi declarada a operação “Desert Fox” (“Raposa do Deserto”), com mais bombardeamentos intensivos. Após os acontecimentos do dia 11 de Setembro do 2001, concretamente em Setembro do 2002, o presidente dos EUA George Bush declara que Saddam Hussein violou 16 das resoluções da ONU e que não desmantelou a sua indústria de produção de ADM. Os oficias iraquianos negam tais acusações e os inspectores afirmam que não tem nenhuma prova disso. Ao obter uma resolução negativa do Conselho de Segurança referente ao uso da força, EUA e Reino Unido, junto de outros países como Espanha, Portugal, Bulgária, Austrália, Japão (cuja Constituição impede-o de colocar as suas tropas fora do seu próprio país), invadem o Iraque no mês de Março de 2003, debaixo das acusações de posse de ADM e apoio ao terrorismo islâmico. Ambos os factos serão desmentidos pelo mesmíssimo presidente dos EUA George W. Bush. O praticamente inexistente exército iraquiano é rapidamente derrotado. Udai e Kusai são abatidos pelas forças norte-americanas e Saddam Hussein é capturado perto de Kirkuk. O Baas é proibido pela administração norte-americana e instaura-se uma administração provisória com olhos postos nas eleições do novo parlamento iraquiano.

Retirado de «La Jornada», tradução de Sonia Arroyo

publicado por cppc às 12:07
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